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Sarampo, HPV e catapora: taxas de vacinação abaixo da meta acendem alerta no CE

Sem imunidade de rebanho, essas e outras doenças podem ser reintroduzidas.

Publicada em 07/11/25 às 11:06h - 17 visualizações

por DN


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 (Foto: Thiago Gadelha/SVM)
No Ceará, as vacinas infantis oferecidas gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) ainda não atingiram as metas de cobertura previstas em 95% pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI). 

Até esta quarta-feira (5), somente os imunizantes BCG e Hepatite B, aplicados ao nascer, registram mais de 100% de taxa de vacinação. Os demais indicam de  73% a 89% de imunização . Os dados são do Sistema de Informações do PNI (SIPNI).


O balanço de 2025 é referente às doses aplicadas no período de janeiro a 1º de setembro, podendo ainda ser alterado com a consolidação das informações.

Entre as vacinas com sinal de alerta estão a 2ª dose da tríplice viral (79,07%), HPV (83,13% em meninas e 70,35% em meninos) e varicela (78,94%). O PNI estima uma meta de 95% de imunização coletiva, índice de cobertura necessário para induzir a  imunidade de rebanhos  no país.

Sem uma proteção que atinja todas as crianças e não propicie a imunidade de rebanhos, essas e outras doenças podem se reintroduzir no cenário local, como alertam especialistas. Por isso, campanhas de vacinação e busca ativa pelos não vacinados são fundamentais para chegar a essa cobertura ideal. 

Dificuldades na vacinação de rotina

Os números apontam um fato: a taxa de imunização só supera os 100% em casos de vacinas aplicadas em maternidades . Os imunizantes de rotina, que dependem da ida ou do retorno dos pais às unidades de saúde, estão na média de 80% de cobertura vacinal.  

A BCG (que previne contra as formas graves de tuberculose) é aplicada em bebês nascidos em maternidades públicas ou naquelas particulares que têm convênio com a rede pública de saúde, enquanto a hepatite B é feita em ambas as instituições. 

“Quando os bebês nascem dentro das unidades de saúde, eles são vacinados antes da alta ou recebem aquela orientação, mostrando a importância inicial, seja na primeira consulta com o pediatra ou no posto de saúde, com o médico de saúde da família”, explica a médica pediatra Vanuza Chagas. 

No caso de vacinas que dependem de retorno, a médica explica que diversos fatores estão envolvidos na menor cobertura vacinal. Uma delas é uma baixa percepção de risco , que ocorre quando uma criança cresce apresentando comprometimentos de saúde ou doenças graves e acaba 'tranquilizando' pais e responsáveis.  

“Se tem a ilusão de que a catapora, principalmente na infância, é uma doença que não tem gravidade, que é leve, mas pode ter complicações como infecções de pele que levam a internação, pneumonias e encefalites”, afirma. 

Uma única criança com catapora pode contaminar um grande número de pessoas por ser uma doença de alta transmissibilidade. Quando não há uma imunização coletiva em creches ou escolas, isso pode levar a  surtos da doença . No caso de bebês, gestantes e imunossuprimidos, a enfermidade pode se apresentar de forma muito grave. 

Quando se trata de vacinas que desativam mais de uma dose, como a tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola), o abandono vacinal preocupa ainda mais. No Ceará, a 1ª dose soma 89,83%, enquanto a 2ª tem uma taxa de 79,07%. 

Nos últimos anos, os  casos de sarampo vêm se espalhando  pelo mundo inteiro, com alerta de surto em estados brasileiros como Tocantins, Mato Grosso e Minas Gerais. Segundo Vanuza, é importante a conscientização das famílias de que o esquema vacinal contra a doença só é completo com as duas doses.

“Quando existe essa fase de riscos, se há casos fora ou dentro do país, e as pessoas viajam e voltam com o vírus do sarampo, ele encontra aqui essa brecha vacinal. Então, vai ter casos da doença no Brasil. O sarampo está voltando a ser um risco iminente de um surto maior ainda”

Vanuza Chagas
médica pediátrica

Por ser um Estado turístico, em situações de alerta como a do sarampo, fortalecer a imunização da população cearense é uma das formas de proteção, evitando a circulação e transmissão do vírus.

“Se a gente fizer a nossa parte, nós faremos um bloqueio evitando que haja ali uma reintrodução de qualquer vírus, seja do sarampo ou a coqueluche”, reitera Ana Karine Borges, coordenadora de Imunização da Secretaria da Saúde do Estado do Ceará (Sesa). 

contra o HPV 

Segundo um coordenadora da Sesa, a cobertura da vacina contra o papilomavírus humano (HPV) requer ainda mais atenção na busca de alcançar a meta . Até o início do mês de novembro, 83,13% das meninas de 9 a 14 anos e 70,35% dos meninos na mesma faixa etária foram vacinados no Ceará.    

"Essa é uma vacina que tem uma proteção e eficácia para os quatro tipos de vírus do HPV que mais causam câncer do colo do útero, ânus, pênis e outros. Nós precisamos proteger nossas crianças e adolescentes", ressalta. 

O HPV é uma infecção sexualmente transmissível mais frequente no mundo e pode causar desde verrugas genitais a tumores malignos como câncer do colo do útero , ânus, pênis, boca e garganta.  

Em clínicas particulares e redes de farmácias, o imunizante que protege contra o HPV pode variar de R$ 800 a R$ 900 a dose. São possíveis três aplicações para completar o esquema vacinal. 

No Brasil, a vacinação para as meninas começou em 2014 e para os meninos em 2017. Essa é a forma mais eficaz e segura de prevenção , aliada ao uso de preservativos. Em 2024, o imunizante quadrivalente de dose única para crianças e adolescentes de 9 a 14 anos passou a ser adotado no país como substituição ao esquema vacinal anterior de duas aplicações. 

"Ainda temos muitos pais que não querem, não aceitam a vacinação contra o HPV, mas a gente precisa conversar e desmistificar sempre. Se tiver alguma dúvida, confira uma fonte de informação confiável, adequada e não confiar em fake news", diz Ana Karine.  

Reverter a

Um dos motivos que explicam a baixa adesão e cobertura é a hesitação vacinal , que acontece principalmente com a proteção contra a Covid-19. “Existe um paciente que tem praticamente todo o esquema completo desde o primeiro ano de vida, mas não tem a vacina de Covid”, diz Vanuza.  

Diante disso, é necessário fornecer informações de qualidade para pais e responsáveis, apresentando dados e demonstrando os riscos de não vacinação. E o primeiro passo para esse movimento deve vir dos profissionais de saúde que trabalham com a imunização, afirma a médica. 

"Quem trabalha em sala de vacina, na saúde comunitária, pediatras, médicos e enfermeiros que lidam com informações da população precisam estar preparados para dialogar, ouvir e acolher essas hesitações, os medos e as receitas. Tem que saber manejar isso de forma muito segura para levar esse paciente a se vacinar e se proteger", ressalta. 

Em 2024, o Diário do Nordeste publicou uma série de reportagens Imune ao Medo , um retrato sobre a imunização no Ceará, a evolução das coberturas vacinais e os motivos que interferem no alcance das taxas.   

Uma análise apresentada pelo material é de que, nos últimos 40 anos, as vacinas foram 'vítimas' da própria eficiência: as doenças protegidas pelos imunizantes atingiram níveis muito baixos e, com isso, a população esqueceu dos riscos atrelados a ela. 

Sem essa percepção do risco e num contexto de barcos sobre a segurança dos imunizantes, muitos pais deixam de cumprir os esquemas vacinais. Para Ana Karine Borges, da Sesa, a população precisa ser sinalizada da disponibilidade e da necessidade das vacinas no dia a dia. 

“A gente precisa proteger nossas crianças e adolescentes. É pensar que as vacinas são uma prevenção e não um tratamento, e que a gente não pode esperar apenas por épocas de campanha. A gente precisa buscar atualizar, como se fosse um passaporte mesmo, e manter sua caderneta de vacinação no dia”
Ana Karine Borges
coordenadora de Imunização da Secretaria de Saúde do Estado do Ceará (Sesa)

Uma das estratégias para isso são as campanhas de vacinação, promovidas em todo o país. No último mês de outubro, o Ceará e outros estados somaram à mobilização nacional de multivacinação, com objetivo de atualizar a caderneta de crianças e adolescentes.

Em momentos como esses, existe um incremento de doses aplicadas, segundo Ana Karine. “Isso nos mostra que as campanhas de mídia são importantes para mostrar à população que as vacinas existem, estão disponíveis e que elas precisam se imunizar”, afirma. 

Outras estratégias para promover a vacinação de crianças são:

  • Parcerias para vacinação nas escolas, lojas e centros comunitários;
  • Unidades abertas nos finais de semana ou horários estendidos na semana;
  • Campanhas de divulgação nos meios de comunicação;
  • Busca ativa.

Imunizar bebês e crianças é uma questão de longo prazo , uma vez que, futuramente, serão adultos protegidos e com segurança. “Ou seja, uma pessoa que faz uma vacinação de sarampo agora quando criança, enquanto adulto, ele não vai mais precisar fazer nenhuma outra dose”, afirma Karine. 

O contato da Secretaria da Saúde com outras Pastas como Educação e Proteção Social são fundamentais para aproximar a população. Por exemplo, a figura do Zé Gotinha é umas alternativas adotadas para criar uma conexão com as crianças.   

"É partindo disso que as pessoas vão autorizando e compreendendo que a vacina faz parte da rotina e de um cuidado. Entendendo que precisamos manter essa situação vacinal em dia porque, somente assim, vamos evitar que doenças possam ser reintroduzidas no Estado", reforça. 






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