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Para o consultor em energias e sócio fundador da empresa Energo Soluções em Energias, Adão Linhares, existe um aumento oculto nas demissões industriais da área no Estado , sendo o acréscimo no desemprego no setor industrial de componentes eólicos um dos efeitos mais imediatos do cenário.
"Essa crise tem impacto direto no emprego no setor, com possibilidade de aumento nas demissões, especialmente pela paralisação de novos contratos e projetos. Isso representa o maior desaquecimento desde os anos 2000", alerta.
Conforme noticiado pelo Diário do Nordeste, desde 2024, a Aeris Energy já demitiu mais de 5 mil funcionários ao longo da crise no setor , de acordo com o Sindicato dos Metalúrgicos do Ceará (Sindmetal-CE). Um fabricante brasileiro de pás utilizadas em geradores de energia eólica está localizado no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP).
Já em outubro deste ano, a Vestas, maior fabricante de turbinas eólicas do mundo, realizou 41 demissões em sua planta em Aquiraz .
A nível nacional, um levantamento da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica) estima que o setor eólico perdeu cerca de 10.000 empregos diretos entre 2024 e 2025, com risco de aumentar nos próximos meses e em 2026, caso novos contratos não sejam fechados. Os números consideram todas as etapas da cadeia de fabricação.
No caso do mercado de energia solar, o contexto de recessão também está presente . É o que reforça o vice-presidente da Cadeia Produtiva da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), Nelson Falcão.
"Houve duas coisas: empresas que fecharam ou reduziram seus quadros e empresas que cancelaram projetos que estavam previstos. Houve uma redução muito grande no volume de negócios solares na região (Nordeste) e, por consequência, demissões ou suspensão de contratações que estavam previstas"
Procurada, a Aeris informou que, entre 2024 e 2025, ocorreram 3.700 demissões. A companhia esclarece, ainda, que não há novos movimentos previstos.
Já a Vestas reforça que “realiza ajustes regulares em suas operações, sempre em linha com a dinâmica do mercado e a demanda dos clientes”. Por meio de nota, a empresa comunicou que inaugurou, em outubro, um novo Hub Regional de Atendimento das Vestas em Natal (RN), mas que o cerceamento continua sendo um desafio no setor.
"Além disso, a geração distribuída (GD) segue beneficiada por subsídios que criam distorções e comprometem a isonomia entre as fontes renováveis. Se queremos garantir competitividade e sustentabilidade no longo prazo, o Brasil precisa avançar em uma reforma estrutural que corrija assimetrias e fortaleça a eficiência do sistema elétrico", completa.
Já segundo levantamento do Observatório da Indústria, da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), a partir dos dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), as classificações de empregos que englobam o setor de energias renováveis tiveram um saldo negativo de 3.471 vagas entre janeiro de 2024 e setembro de 2025. Os assuntos analisados foram "Geração, transmissão e distribuição de energia elétrica" e "Fabricação de geradores, transformadores e motores elétricos".
O gerente do Observatório, Guilherme Muchale, explica que, apesar da maior parte da geração de energia no Ceará, nesses últimos dois anos, ser proveniente de energia eólica e solar, as classificações classificadas não são exclusivas para o setor de energias renováveis e incluem outros processos energéticos. Além disso, esses setores não representam toda a cadeia de energia renovável, já que, principalmente no caso da energia solar, diversas atividades econômicas não são formalizadas.
Nesse sentido, não é possível definir, com precisão, o cenário de empregos no setor de energia renovável no Ceará, mas, para Muchale, o resultado negativo foi impactado pelas demissões nas empresas da cadeia eólica.
“A redução de empregos no setor ocorre, sobretudo, pela ausência de leilões de geração, gerando redução na implantação de parques eólicos no Brasil”, indica.
ENTENDA UMA CRISE
Com alto índice de ventos e irradiação solar, o Ceará é um dos estados brasileiros mais afetados pelo cenário. Segundo o secretário executivo de Energia e Telecomunicações da Secretaria de Infraestrutura do Ceará (Seinfra), Dickson Araújo, 72% da geração de energia do Estado é renovável.
Na visão de Adão Linhares, " a crise no setor de energias renováveis no Ceará em 2025 está relacionada, principalmente, aos cortes na geração de energia eólica e solar, conhecidos como "curtailments ", que têm danos causados prejuízos devido à limitação na absorção da energia gerada pelo Sistema Interligado Nacional (SIN)".
As consequências ocorrem devido à rápida expansão da geração de energia no Estado, especialmente das fontes renováveis (solar e eólica), e à falta de infraestrutura adequada para o escoamento dessa produção.
Nesse cenário, é gerado um excedente de energia que não consegue ser devidamente transmitido ao Ceará para onde há demanda e acaba sobrecarregando a capacidade de escoamento e gerenciamento do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
Como resultado desse excesso de energia, muitas vezes é necessário reduzir a produção de hidrelétricas ou até desligar usinas renováveis.
De acordo com Nelson Falcão, o corte faz com que os empresários desistam de investir em projetos do setor no Nordeste , já que há possíveis limitações na produção impactando níveis o lucro do empreendimento.
" Estamos falando de um valor equivalente a 4,5 bilhões de reais em energia que deixou de ser produzida, principalmente no Nordeste . Esse dinheiro que seria investido no Brasil saiu para outros projetos que estão hoje no Chile, na Argentina, na Colômbia, no Peru, em outros países da América do Sul", frisa.
Para ele, a situação é delicada desde o início do ano, com agravamento a partir de junho e julho.
Já para o diretor técnico Regulatório da ABEEólica, Francisco Silva, esses cortes cresceram significativamente a partir de 2023, devido a um "crescimento desordenado da geração distribuída ao longo dos últimos anos, completamente fora de qualquer planejamento, muito calculado em grandes subsídios, e isso acabou fazendo com que nós tivéssemos uma redução na demanda por energia elétrica dentro do setor elétrico brasileiro".
Segundo Adão, em 2025, cerca de 341 mil megawatts-hora (MWh) de energia eólica foram desperdiçados no Ceará, com prejuízos de R$ 20 milhões somente neste segmento .
Outro levantamento, realizado pela empresa ePowerBay, mostra que o Ceará já perdeu quase 3,3 milhões de MWh devido ao corte entre outubro de 2021 e setembro de 2025, acumulado capaz de abastecer 16,5 milhões de casas por um mês .
Adão aponta, ainda, outras causas para a crise, como:
Além de demissões em massa, Adão aponta que o cenário resultou na desaceleração de investimentos, redução da produção e perda de competitividade frente a outros estados, perdas expressivas de receita industrial e exportações de equipamentos eólicos, fechamento de linhas de montagem e risco de descarbonização mais lenta na economia cearense.
"Em resumo, o Ceará vive uma crise real no setor, causada por gargalos estruturais e mudanças regulatórias, com reflexos claros sobre investimentos e emprego industrial. O problema é nacional, mas mais severo no Nordeste, particularmente em estados líderes de geração eólica como o Ceará", ressalta.
Apesar das dificuldades atuais, ele sugere que o setor projete uma recuperação plena apenas para 2027 , mudanças de melhorias na infraestrutura e políticas públicas que modernizem e ampliem o sistema de transmissão.
Entre as soluções para a crise energética, Nelson cita a ampliação urgente do sistema de transmissão de energia, a utilização de sistemas de baterias para armazenar partes da produção que estão cortadas, o uso de tecnologias de restauração do sistema e equilíbrio de carga e o diálogo aberto entre todos os participantes do mercado.
Questionado sobre a crise no setor de energias renováveis no Ceará, o Governo ressaltou dados positivos do ramo elétrico no Estado . Confira o pronunciamento na íntegra abaixo.
Leia o que diz o governo do Ceará
O Governo do Ceará, por meio da Secretaria do Trabalho (SET), afirma que o setor elétrico cearense apresenta sinais consistentes de estabilidade e crescimento na geração de empregos formais nos últimos anos.
Dados da “nova” série do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego, indicam que, entre janeiro de 2020 e setembro de 2025, foram criados 1.460 novos postos de trabalho no setor.
A partir de 2023, observa-se um avanço expressivo, com 96,2% desse total (1.404) vagas geradas nesse período — resultado que evidencia um desempenho mais favorável do segmento.
Nos anos de 2024 e 2025, o setor mantém um ritmo estável de expansão, com a abertura contínua de vagas de novos formais, consolidando a tendência positiva em relação ao período de menor crescimento registrado entre 2020 e 2022, quando foram incluídos 56 novos empregos, considerando o volume de admissões (821) e bloqueios (765) oferecidos no período.
A melhoria nos indicadores recentes reflete uma dinâmica mais favorável do setor elétrico, impulsionada por investimentos em infraestrutura. O equilíbrio positivo entre admissões e desligamentos confirma a presença de um mercado de trabalho mais dinâmico e confiante, alinhado à recuperação econômica e à retomada de projetos estratégicos em todo o país.
O Estado confirma a importância estratégica dessas e reforça que o Ceará segue na liderança da transição energética, com novas perspectivas de mercado através de projetos como o Hub de Hidrogênio Verde que será um grande consumidor de energia renovável, que proporcionará absorção de mão de obra comprometida no setor.
Entre outras ações em andamento, destaca-se a atração de novos investimentos, sendo esses através do apoio do Fundo de Desenvolvimento Industrial (FDI), como já é o caso de muitas empresas do setor de energia já instaladas no estado através do Programa de Incentivo da Cadeia Produtiva Geradora de Energias Renováveis - PIER.
Nosso compromisso é garantir que o Ceará siga liderando uma agenda de energia limpa e desenvolvimento sustentável, protegendo empregos e criando novas oportunidades para os trabalhadores cearenses.
Entre 2012 e 2025, foram aprovados 17 pleitos referentes ao PIER no Conselho de Desenvolvimento Econômico - Condec, distribuídos em 12 municípios cearenses. No conjunto, os projetos se comprometem a investir R$ 16,3 bilhões e a previsão de gerar 8.658 investimentos diretos. A Grande Fortaleza concentra a maior parcela dos investimentos (57%), impulsionada pelo eixo logístico-portuário do Complexo do Pecém, enquanto Vale do Jaguaribe, Cariri e Litoral Leste emergem como polos de diversificação, com mais de 35% do total investido pelas empresas.
Do ponto de vista estratégico, o Governo do Ceará, por meio da Secretaria da
A Infraestrutura (Seinfra), atua como articuladora, promovendo o diálogo entre as empresas, investidores e o Governo Federal, com o objetivo de garantir um ambiente favorável à continuidade dos investimentos e à preservação dos postos de trabalho. Além disso, mantém diálogo permanente com o Governo Federal, por meio do Ministério de Minas e Energia, buscando soluções estruturais que contribuam para o avanço do setor, como a ampliação das linhas de transmissão na região Nordeste, medida essencial para viabilizar o escoamento da energia produzida e permitir a entrada em operação de novos.
O Estado reafirma seu compromisso com o fortalecimento da cadeia produtiva de energias renováveis — um dos pilares do desenvolvimento sustentável e da economia cearense — e com a geração de emprego e renda para a população.